quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Espírito de Jung-gun garante poder aos militares na Coréia do Norte

Os funerais do presidente da Coréia do Norte, Kim-Jong-il, traduzem um responsório, se forem autênticas as imagens das lágrimas vertidas e das expressões de dor do povo pela perda do seu líder. Rituais de velório e sepultamento que deixariam perplexo Fustel de Coulanges, o mestre da análise do culto e da divinização dos mortos, em sua formidável obra “A Cidade Antiga” (1864).

Falo em autenticidade, porque a Coréia do Norte tem o regime comunista mais fechado do mundo, baseado numa suposta dinastia ditatorial, e as informações e imagens saem de Pyongyang sob censura do governo ou pelas vias alternativas de Seul e Pequim.

Transcorreram 12 dias- entre a morte e o sepultamento do ditador- de mistério, expectativa e apreensão mundiais sobre o rumo que aquela pequena potência nuclear tomará nas mãos do filho e provável sucessor, Kin-Jong-un, de 29 anos de idade, alçado à condição de comandante supremo das Forças Armadas.

O acontecimento em si comporta as mais variadas análises e especulações no Oriente e no Ocidente, mas o farto noticiário a respeito, tendente a se multiplicar por alguns meses, é alimentado pelo receio, por parte de grandes potências, de um desequilíbrio político-militar naquela região, com repercussões mundiais.

Não seria, obviamente, receio de que o novo e jovem governante passe a instilar seus ímpetos guerreiros, que esses ele não os tem ou foram escoimados pelos seus estudos na Suíça. O receio é do aparatik militar e partidário, repleto de espiões infiltrados no povo e que controla não apenas os governados, mas também os governantes. Eis o efeito sinérgico de uma ditadura militar de esquerda.
Stalin centralizava em torno de si a sua equipe, o mesmo acontecendo com Hitler e Mussolini, os três encarnando o estado totalitário, em forma piramidal. No caso coreano, a pirâmide é invertida: Simula-se uma dinastia ditatorial, uma encarnação do poder transmitido de pai para filho e neto, mas não é crível que a família seja a chave do poder.
Quando se menciona o “Presidente Eterno” Kim-Il-sung, pai de Kim-Jong-il, se presta homenagem ao fundador da Coréia do Norte, em 1948, mas os verdadeiros donos do país são as Forças Armadas, altamente profissionalizadas, com mais de um milhão de efetivos e um poderoso arsenal, controladoras do próprio sistema partidário (Partido dos Trabalhadores, amplamente hegemônico,  Partido Chondoísta e Partido Social-Democrata, coligados.)
A alma das Forças Armadas é o Exército Revolucionário da Coréia do Norte, cujo espírito é o mártir e herói da libertação, Ahn-Jung-gun, executado pelos japoneses em 26 de março de 1910. É esse o espírito que rege o corpo e a alma da Coréia do Norte, e ele não fará nada que a China e a Rússia não permitam.

                                                                                                                                       

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

12 Gênios da Atualidade Política Brasileira (3a.listagem)


Em recente artigo de análise política, intitulado “12 gênios da atualidade política brasileira “, mencionei os nomes de José Sarney, Lula, Marco Maciel, Paulo Maluf, Fernando Collor, Itamar Franco, Joaquim Roriz, Iris Rezende, Francisco Dornelles, César Maia, Michel Temer e Inocêncio de Oliveira.
Hoje, com a morte de Itamar Franco, coloco como seu substituto na minha lista o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu, que se encontra ainda sob investigação acerca das denúncias sobre seu suposto envolvimento no escândalo do “Mensalão”.
Não necessariamente por essa ordem, mas José Sarney, sem dúvida, continua encabeçando a lista há décadas, e a sua permanência na presidência do Congresso Nacional dispensa mais explicações. Comparam-no a Joseph Fouché, mas eu não
concordo, pois penso que seus estilos e suas  trajetórias são muito diferentes.
E aí, sim, explico a razão de acrescentar à lista o nome do deputado José Dirceu, esse, sim, o nosso clone de Fouché. Um clone bem mais modesto, creio, porque o Brasil nunca teve alguém que fizesse o que Fouché fez  como regicida e “carniceiro de Lyon”.
Dirceu combateu o regime militar, como ferrenho comunista, atuando no exterior e dentro do Brasil; ajudou a derrubar Collor e participou da ascensão do PT ao poder com Lula, de quem foi ministro da Casa Civil e o melhor articulador político, inclusive nas articulações com nobres e burgueses para garantir maioria parlamentar a Lula.
Bem ao seu estilo de mineiro de Passa Quatro, que conquistou mandato de deputado federal por São Paulo, Dirceu teceu teias tão amplas, que acabou se emaranhando em seus fios, quando o deputado Roberto Jefferson o denunciou como principal arquiteto do “Mensalão”.
Esse “camaleão”, que tem se adaptado às circunstâncias políticas e históricas com notável habilidade; que tem driblado a imprensa e os processos judiciais como enguia ensaboada, conhece profundamente os meandros do poder no Brasil e a psicologia das elites.
A principal arma de Dirceu é a informação, que ele continua cultivando com desenvoltura nos principais nichos do governo, nas sombras do PT e nas próprias hostes de outros partidos. Informantes não lhe faltam.
Algumas figuras comprovadamente envolvidas no “Mensalão” já voltaram à cena política, reocupando até postos estratégicos dentro e fora do Congresso Nacional, mas José Dirceu ainda luta para escapar dos tribunais.
Quando digo gênio político, não levo em consideração relevante o aspecto ético, o caráter do político, e nem mesmo a alma, que, segundo Ortega y Gasset, se conhece pela escrita e pela obra.
Considero, primeiramente, a singularidade da intimidade do gênio com o poder como estratégia para determinado objetivo político. Uma coisa (rara) é o político que doma o poder, e outra é o que se deixa domar pelo poder. Essa lista que mantenho atualizada é produto de minha reflexão sobre esse aspecto da cratologia.