Li na internet que há
50 comediantes e palhaços candidatos às próximas eleições municipais,
inspirados no sucesso obtido pelo comediante e palhaço “Tiririca”, eleito com cerca.de 1,3 milhão de votos para deputado
federal pelo estado de São Paulo.
Francamente, não vejo
razão para essa discriminação feita pela imprensa em relação a esses
profissionais, os quais considero cidadãos comuns no exercício de seus direitos
políticos e perfeitamente aptos ao exercício da representação política em todos
os níveis.
Há o aspecto pitoresco
da demanda política por uma categoria ainda considerada marginal num país
acostumado a listar candidatos engenheiros, advogados, médicos, jornalistas, professores,
empresários, militares, comerciantes, agricultores, etc.-profissionais
tradicionais do recrutamento político, que hoje consolidam um corporativismo
visível na Câmara dos Deputados, com suas respectivas “bancadas” profissionais atuando
paralelamente às “bancadas” regionais do Nordeste, Norte,Centro-Oeste,Sudeste e
Sul.
O corporativismo,
instituição antiga no mundo inteiro, assim se estrutura em duas camadas, na
Câmara dos Deputados, sobrepondo-se à missão representativa individual que
Edmund Burke, em meados do século XVIII, qualificava como “mandato imperativo”,
quando o eleito atua subordinado ao seu eleitorado, e “mandato delegado”,
quando o eleito decide sem ouvir suas bases.
A super-representação ou
a sub-representação, duas distorções existentes no sistema representativo
brasileiro, têm origens estruturais e conjunturais, históricas, políticas, sociais
e culturais, e os 513 deputados federais representam 190,7 milhões de brasileiros
com as mais assustadoras assimetrias. Por exemplo: Um voto do eleitor de
Roraima vale o mesmo que o de 12,7 eleitores do estado de São Paulo.
Consultado, certa vez,
a respeito dessa distorção, sugeri a um candidato de São Paulo que transferisse
seu título para Roraima e fosse disputar mandato naquele Estado longínquo, hoje
alvo da cobiça internacional e com boa parte de seu território transformado em
reservas indígenas suspeitas. Em outras regiões, onde o voto é decidido na base
do trabuco, a questão do risco é a mesma e desestimula os puristas da
representação simétrica.
É uma questão muito
complexa, que o Brasil empurra com sua barriga ao longo da sua história
constitucional, que chega hoje à fixação do mínimo de oito deputados por
estado, e não vejo possibilidade de que seja resolvida de acordo com padrões da
matemática política idealista.
O Brasil é um país de
assimetrias em todas as expressões do poder nacional, e essas assimetrias se
projetam no campo das oportunidades. O sistema de quotas, com a denominada “discriminação
positiva”, para resgatar injustiças históricas, como as geradas pelo escravismo
contra os negros e índios, não passa de um remendo moral e ético, que acaba ficando
pior do que o soneto. Idêntico raciocínio aplico para a redução da desigualdade
econômica e social mediante políticas públicas assistencialistas... Não há
outra solução que passe ao largo do desenvolvimento integral do Brasil.
O nexo entre os
candidatos inspirados em “Tiririca” e a realidade brasileira é a busca de
justiça social, o desejo de reconhecimento e participação política em uma
sociedade pouco permeável ao ideal de cidadania. Vida de comediante ou palhaço
não é fácil; se tais profissões começam a viabilizar a inserção política e
social, então “Tiririca” já fez muito mais pela política brasileira do que seus
críticos e, talvez, até ele mesmo imaginam...
Nenhum comentário:
Postar um comentário